Tempo real
Mais um dia,
Acabas de almoçar,
E deitas-te no sofá.
Na cozinha, mais um prato
Por limpar.
Mais um na pilha,
Todos por limpar.
Levas as mãos à face,
É igual, é tão igual,
Tão terrivelmente igual…
Ouves aquele tic-tac,
Olhas para o relógio,
Os ponteiros passam,
O tempo passa, passa sempre.
Enfureces-te,
Agarra-lo,
Arremessa-lo, despedaça-lo.
Acalmas-te, tens que te acalmar
Segues passo-a-passo,
Passo-a-passo, passo-a-passo.
Chegas, lavas a cara suja,
Vês-te, e vês,
Como nunca viste
Aquelas rugas bem marcadas.
Gritas,
Não aguentas, não mais
E gritas, e corres
E atiras-te,
Atiras-te de cabeça,
Mas num rodopio quase
Que cais de pé.
Pouco interessa,
Estatelas-te no chão,
Quais rugas, qual cara
Já não és nada.
Nada. Só um corpo
Um corpo que jaz
Em alcatrão,
Ao lado duma poça de sangue,
Sangue enegrecido,
Onde está mergulhado um cartão
Sem nome, nem imagem,
Que hoje ficará por picar.
Bela forma de matar (ou pelo menos parar) o tempo: destruir o relógio.
ResponderEliminarBom poema.