Cheguei a casa e, como a minha mãe não estava, fui directamente para o meu quarto. Liguei a aparelhagem e pus-me diante do espelho, tentando perceber se o que tinha ouvido era ou não verdade. Seria eu assim tão feia como todos diziam?
Prestei mais atenção à imagem que tinha diante de mim, atentando nos detalhes do meu rosto. Não sabia se se devia ao facto de toda a minha vida me terem chamado “feia”, mas não me conseguia achar bonita. A rapariga que estava à minha frente não era minimamente atraente – não o era aos meus olhos, não o era aos olhos da sociedade, não o era aos olhos do mundo. De repente, senti um vazio enorme dentro de mim. Não gostava de mim e isso fazia-me sentir triste…sozinha. Se ninguém me achava atraente, se tudo o que me diziam era “Tu és feia”, eu iria passar a minha vida sozinha, comigo própria. E se nem eu gostava de mim, esperava-me uma vida de martírio, de punição, de sofrimento.
…
Como estava um dia quente de inverno, resolvi faltar às aulas da tarde e ir até ao jardim da cidade. Sentei-me num banco, sozinha, perto do lago. Aí fiquei horas a observar os casais e as raparigas bonitas que passavam, que passavam e que eu invejava. Mas as pessoas como eu estavam destinadas a ficar sozinhas, a não encontrar a felicidade. Tinha de me convencer disso e tentar viver uma vida “normal”.
- Desculpa, tens horas? – perguntou-me um rapaz que entretanto partilhava o banco comigo.
- Sim, são cinco – retorqui, tentando parecer amável.
- Humm, obrigada. Posso perguntar-te uma coisa?
- Sim, claro – disse, esperando algo parecido com “Porque não vais para outro banco? És tão feia”.
- Porque estás tão sozinha, tão triste?
- Olha bem para mim…!
- Não percebo.
- Se fizessem um filme sobre mim teria como título “Ah! Um monstro! Fujam!”.
- O quê?! Estás-me a tentar dizer que és o quê, feia?
Percebendo que o meu silêncio e o meu olhar significavam um mais que óbvio “sim”, ele exclamou:
- Isso é de loucos, tu és linda.
Fiquei, por momentos, a olhar para ele, boquiaberta. De repente, uma imensidão de lágrimas começou a escorrer-me pela face. Será que ele não percebia que, ao mentir, só me magoava ainda mais?
- O que foi? É verdade. Acredita em mim.
Então, o meu olhar passou de zangado e inundado, a incrédulo e controlado. Apercebendo-se da mudança, repetiu:
- És linda.
Nesse instante, ouvi um “click” insonoro algures dentro de mim. Fazia sentido: não precisava de ser bonita, só precisava de me aceitar. Eu não tinha uma beleza estonteante, mas tinha nascido assim e nada podia fazer para o alterar.
Neste dia, passei a encarar as coisas, a vida de forma diferente: iria, com certeza, passar o resto dos meus dias comigo, por isso não adiantava odiar-me. Mesmo continuando a achar que não era bonita, aceitei-o. Aceitei-me.
Este texto leva nos reflectir sobre questões universais como a beleza interior. Mostra-nos como o conceito Beleza é algo muito relativo
ResponderEliminare presente na subjectividade de cada Homem.
Gostei.