Parei. Para lá das ramagens das árvores existia um lugar que eu não conhecia. Um lugar que para mim era um não lugar, porque eu não o conhecia. Por isso, tudo o que estava para lá das ramagens das árvores não existia. Preocupava-me essa não existência. Preocupava-me o atravessar aquela vegetação e depois quedar-me num nada que não existe. Asfixia me a ideia de ser um ninguém num nada que existe. Estrangula-me o pensamento, constrange-me a consciência. Como seria o nada para lá daquelas ramagens? Como seriam as pessoas, as crianças? Como seria o sol, a chuva? Como seria tudo isso, isso, isso, naquele vácuo de existência? Não o sei. Mas penso que será: nada. E isso é o quanto me basta dizer sobre um nada que pertence a ninguém num lugar que não existe.
Escutei um não som que vinha do outro lado das ramagens. Na verdade, talvez eu tenha escutado um infra-som, uma frequência muito baixa que eu não consigo ouvir, e que por isso não existe. Desejava passar para lá desta fronteira. Saber o que se passa do outro lado. Mas não conheço o que se encontra para lá desta fronteira, e por isso não consigo alcançar aquele nada de nada que existe. Que me aconteceria se por momentos ousasse trespassar este ténue limiar que me separa do que não conheço? Cairia num infinito abismal? Num vazio intemporal, espacial? Passaria também eu a não ter existência?? Isso arrepia-me os sentidos. Mete-me em sentido!
Tenho estado de vigília permanente. Deste lado escurece. Anoitece. As pessoas passam em meu redor e tudo progride na sua natural existência. Creio ver um distante lugar para lá destas ramagens. Creio, apenas. As certezas nunca me acompanharam nesta viagem. Talvez seja apenas ilusão. Tenho dito para mim, que existe uma necessidade constante no Homem em mudar o seu mundo interior. Só assim conseguirá mudar o mundo que o rodeia.
Entendi isto como um texto alegórico de natureza introspectiva. Vejo isto mais como um modelo de pensamento, talvez filosofia de vida, algo que por si só poderá desencadear um novo leque de textos, tão extensa, e mesmo vaga, é a temática.
ResponderEliminarUma coisa curiosa que apontei nestes poucos posts no blog é até uma certa parecença. Tu, escreves sobre a sensação do 'nada', algo que o João já fez antes a partir dum jogo dicotómico, e por sua vez esse jogo de dicotomias foi a base para o meu texto 'Bem e mal, afinidade e acaso'.
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ResponderEliminarConcordo Hugo. São questões de natureza introspectiva/existencialista. Muito viradas para o interior do Eu.
ResponderEliminarÉ certamente um texto de cariz filosófico e que leva o leitor à reflexão.
No texto da Alice que comentei, também estão presentes alguns destes aspectos. Embora com uma abordagem diferente, o texto da Alice que descrevia uma situação de análise pessoal(estética do Eu,feio), também nos remetia para uma certa reflexão interior.
Sim, sem dúvida que o texto da Alice também tem essa questão da interioridade, eu apenas pus isso um pouco à parte porque, a meu ver, impinge também um grande cariz social que vai além do Eu, que não vi nem neste teu texto, nem no 'Princípio do fim', do João.
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