segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uma vida normal

Outra vez aquele som irritante, acordas
A custo abres os olhos, não te queres levantar
Apetece-te ficar na cama, dormitar
Mas lá te levantas, é só mais um dia
Rapidamente, lá chegas.
Aquela mesma sala,
Com aquela pessoa de (quase) todos os dias
E ela lá vai falando, e toda aquela sua fala aborrece-te.
Distrais-te, olhas pela janela, está Sol,
Lá de fora algo te parece chamar. Ignoras.
Concentras-te, quem fala merece ser ouvido, merece respeito
E tu tens que a ouvir e respeitar.
Vá, acaba esse esforço necessário, tens tempo para os teus amigos
Eles percebem-te, relaxa, umas quantas boas saídas
Daquelas em que no final só te consegues deitar.
Deixas aquela mesma sala, vais para outras
Sonhavas ser músico ou poeta, seguiste engenharia.
Dizem que tem mais futuro.
Sais de casa, festa e bebida começam a ser rotina
Coleccionas conquistas, sexo também passa a ser rotineiro
Não te significa nada, mas é bom, do outro lado é o mesmo
Porquê preocupares-te?
Sem demorar muito, concluis o teu percurso académico
Os teus pais ficam orgulhosos, tens direito a uma festa
És doutor.
Arranjas emprego num ápice, um bom emprego
Em pouco tempo mudas-te para um apartamento semi-luxuoso,
Nunca tiveste noites tão cómodas.
Aparentemente apaixonas-te, pela primeira vez sentes alguma coisa
Encontram-se umas quantas vezes, tudo corre do melhor
Ou assim te parece
Do nada, ela decide deixar te ver, não te dá explicações
Não tem mal, não te vais abaixo à primeira contrariedade,
És um Homem.
Um dia distrais-te ao atravessar uma estrada qualquer, quando dás por isso só vês uma luz a aproximar-se velozmente e…

Outra vez aquele som irritante, acordaste
A custo abriste os olhos, não te querias levantar
Apetecia-te ficar na cama, dormitar
Ficar na cama? Dormitar? Quanto da tua existência desperdiçaste a não fazer nenhum?Mas lá te levantaste, era só mais um dia
Só mais um dia, que amor ao viver.
Rapidamente, lá chegaste. Aquela mesma sala,
Com aquela pessoa de (quase) todos os dias
E ela lá ia falando, e toda aquela sua fala aborreceu-te.
Distraíste-te, olhaste pela janela, estava Sol,
Lá de fora algo te pareceu chamar. Ignoraste.
Ignoraste. Sempre ignoraste, porque é que nunca saíste?
Aquela sala sempre teve uma porta, que tanto era de entrada ou de saída.
Porque é que nunca a usaste, e respiraste um pouco para variar?
Concentraste-te, quem falava merecia ser ouvido, merecia respeito
E tu tinhas que a ouvir e respeitar.
Nunca pensaste na razão de teres que a ouvir e respeitar?
Acabaste esse esforço necessário, tiveste tempo para os teus amigos
Julgavas que eles te percebiam,
Mas perdeste o número às vezes em que sentias deslocado
Chegavas ao teu quarto, e deitavas-te, sentias-te sozinho, terrivelmente sozinho.
Deixaste aquela mesma sala, foste para outras
Sonhaste ser músico ou poeta,
A tua velha guitarra ficou no sótão a ganhar pó,
Os teus rascunhos foram para o lixo.
Seguiste engenharia,
Nunca te perdoaste por isso.
Diziam que tinha mais futuro,
E tu nunca disseste nada, preferiste sempre ficar calado.
Saíste de casa, festa e bebida começaram a ser rotina
Coleccionaste conquistas, sexo também passa a ser rotineiro
As tuas novas rotinas nunca te deixaram feliz,fizeste com que umas quantas raparigas chorassem por ti.
Fizeste de conta que isso não te importava.
Chegou uma altura em que te olhavas ao espelho com nojo, vias-te como uma pessoa suja e vazia. Talvez o fosses.
Concluíste o teu percurso académico,
Mesmo a tempo,
Estavas a sufocar, não aguentavas mais.
Os teus pais ficaram orgulhosos, tiveste direito a uma festa
Tu, não te sentes minimamente diferente.
Arranjaste emprego num ápice,
Querias tirar um ano para ti, finalmente,
Para viajar,
Para fazer algo que sentisses que valesse a pena,
Resolveste não o fazer,
Tempo para isso no futuro não te faltaria.
Era um daqueles empregos que rendia bem,
Mas te enfadava sem fim,
Pagava as contas e os demais, enfim.Deste por ti num apartamento semi-luxuoso,
Nunca tiveste noites tão amargas,
Fechado sobre aquelas paredes que tanto te custaram,
A tua melhor companhia era o tinto barato.
Apaixonaste-te, pela primeira vez sentistes alguma coisa
Sabes que sentiste alguma coisa, jamais o duvidaste
Encontraram-se umas quantas vezes, tudo corria do melhor
Ou assim te pareceu
Do nada, ela decidiu deixar de te ver, não te deu explicações.
Foste-te abaixo,
Arrogantemente, derramaste as lágrimas na tua almofada de dormir
Já mal suportavas a vida que levavas, e esta foi a última gota que precisavas
Um dia desististe,
Afinal quando é que ela valeu a pena?
Cabisbaixo, numa estrada movimentada, deste um passo em frente.O único que deste.
Só viste uma luz a aproximar-se velozmente e…

Foi inútil.

1 comentário:

  1. Hugo, conseguiste mostrar duas realidades distintas, que se interpelam, num ápice veloz.

    Colocas o leitor perante estas duas escolhas (pelo menos eu assim o intepreto) mostrando no final aquela que aparentemente é a mais catastrófica.

    Gostei

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