Uns anos e um mês
Um chiar forte, estridente, irritante. Um carro travara abruptamente sobre um caminho de terra, deixando no ar uma mistura de pó e fumo.
Desse mesmo carro - um modelo francês branco do início dos anos 90 – saiu um casal, nos seus trinta e picos, num sobressalto evidente juntamente com um rapazito. Uma criança, mais que aparte daquela inquietação de crescidos.
Este casal seguiu em passo rápido para uma casa perto, onde ainda antes de lá chegarem já uma mulher abria a porta de entrada. Era uma idosa, as marcas do tempo já estavam bem delineadas na sua face, no seu semblante onde dominava um claro desassossego.
O par de adultos parou perante ela, entrando os três numa espécie de diálogo frenético, com toques de imperceptibilidade. A criança, vindo de trás, passou por eles como se não existissem. Continuou o caminho por um corredor repleto de fotos a preto e branco, fotos de uma juventude de outrora.
Terminado o corredor, o rapazito entrou por uma porta à sua direita, indo parar a uma sala pouco iluminada, não tivessem todas as luzes desligados e todos os estores, com a excepção de um, fechados.
Aí, a primeira coisa que ouviu foi um tossir rouco. Esse tossir vinha de uma figura, deitada sobre o sofá directamente em frente da velha televisão, tapada com uma manta de cores níveas.
Rapidamente, o rapazito aproximou-se dessa mesma figura. Era um homem, também ele visivelmente atingido pelos anos. O seu rosto para além de delineado por rugas, estava tingido de uma forma preocupadamente pálida.
O velho respirava com dificuldades, e não fosse o puxão no seu braço nem daria pela sua visita. Mas ao dar por ela, respondeu com um sorriso e um esfregar carinhoso no cabelo já despenteado do pequeno.
‘Diz-me lá miúdo, gostas das meninas bonitas ou das feias?’
- Das bonitas.
A resposta mais não fez do que pronunciar ainda mais o sorriso na expressão do homem, que de pronto foi com a mão até à mesa junto de si, à carteira. E da carteira tirou uma moeda, que deu ao ‘miúdo’ que já estendia a sua palma.
‘É isso mesmo. Guarda.’
…
É uma manhã agradável de fim-de-semana, o sol amarelo bem alto no céu, uma aragem que embora forte acaba por ser hospitaleira. É um bom dia.
Num cemitério por aí, ao lado de um sepulcro coberto pelo mais diverso tipo de flores, das mais diversas cores, um jovem. Já há muito que deixara de ser uma criança, mas também ainda não era um adulto.
E lá estava ele, não era magro, nem gordo, tal como não era alto, nem baixo. Nada na sua aparência o diferenciaria da normalidade de alguém da sua idade. Uma vestimenta simples, um corte de cabelo banal.
Mas numa manhã de fim-de-semana estava num cemitério, sentado ao lado de um sepulcro onde um ramo de cravos vermelhos sobressai no topo de todas as outras flores.
E é junto a esse mesmo sepulcro, que surge outro jovem, com uma aparência igualmente normal, talvez com excepção da barba, que francamente nem era barba.
‘Chegaste mais cedo…Já cá estás há muito tempo?’
- Não, acabei de chegar.
O que tinha acabado de chegar não responde, não assente, nada. Limita-se por ficar a olhar para aquela imensidão de cores, e assim fica pelo menos meio minuto, antes de pousar mais um ramo onde já quase não havia espaço. Depois disso senta-se igualmente, acompanhando quem já lá estava.
‘Já lá vai um mês.’
- Sim, já lá vai um mês.
Silêncio novamente. Um silêncio que não é demorado. Um silêncio tremendamente tenso.
‘Não é verdade o que dizem, pois não? O tempo não melhora nada. A dor fica.’
- Não é verdade. A dor fica sempre. E o tempo não melhora nada. Ou te habituas à dor, ou fazes para melhorá-la. As pessoas é que podem fazer com que a dor melhore com o tempo. Mas no fundo ela está lá, sempre.
‘É fodido.’
- Só podia ser.
‘Mesmo assim, mesmo assim…acho que podíamos estar a lidar pior com tudo isto.’
Ao ouvir estas palavras, o rapaz não consegue evitar um riso miudinho.
- Eu, neste último mês já parti mais coisas que sei lá o quê. Já passei noites inteiras a chorar, sem ser sequer capaz de me levantar da cama, por mais que quisesse. Já te odiei. Odiei-te por ma teres apresentado, e por pensar que se isso não tivesse acontecido não estaria a sofrer assim.
Isso, antes de me conseguir lembrar que os amigos não foram feitos para odiar, que também tu estavas a sofrer, e de tudo o que bom teve em conhece-la. Sim, podia estar a lidar pior.
Dito isto, o amigo baixa a cabeça.
- Sabes o que eu acho que me tornou isto um pouco mais fácil? Lembras-te da última vez que cá estivemos? Era um monte de terra, nem campa havia. Uma pessoa que foi…que é tão importante para ti, passa a ser nada mais que um corpo deteriorado e sem vida debaixo de um monte de terra. É a verdade absoluta e fria a chocar na tua cara. Por vezes, faz-te bem levar com uma verdade assim.
‘ É duro. Tem que ser duro. Momentos em que se enfrenta a morte assim...são os momentos que fazem com que os religiosos injuriem Deus, os justos perguntarem-se do significado da palavra justiça, e os bons o porquê de serem bons. Mas a verdade é… ’
- Só por estares vivo tens uma infinitude de hipóteses perante ti. E é isso que deves prezar. E é por isso que tens que viver.
‘…É essa. Nem toda a gente tem essa força. Há uns tempos, ouvi uma história, uma mulher de 70. Um dia o marido de há 50 anos teve um acidente de automóvel, espetou-se na porcaria dum camião. Morte imediata. Desde então, e por dez anos passou a ir todos os dias visitá-lo. Falava com ele, por horas. Abdicou de tudo o que ainda poderia abdicar, até que o seu próprio dia chegasse.’
- Amava-o. E nunca se despediu.
‘Como?’
- As piores perdas são…penso que são, aquelas em que amas mais a outra pessoa do que amas a ti mesmo. E não tens direito a despedida. É difícil agarrar a mão de alguém de que verdadeiramente gostas e dizer que vai ficar tudo bem, mesmo quando sabes que não vai. Dói como tudo. Mas pior será nunca te teres sequer despedido dessa pessoa. Talvez seja por isso que ela fosse lá todos os dias, nunca se despediu. Talvez o ter ido lá todos esses dias, foi a demonstração de força dessa mulher.
O parceiro engole em seco esta resposta.
- De qualquer forma, invejo-a.
‘Porquê..?’
- Porque teve memórias. De certeza que teve imensas memórias, de imensos momentos. Eu, nós…Nós somos novos. Ela, mais nova que nós. E nós? Eu conhecia-a há três anos, estávamos no começo. Houve momentos houve? Poucos, e sabe a pouco. O que eu mais me recordo são sonhos, esperanças, desejos. O de viajar à América, o de ter um casamento a roçar o perfeito, e depois uma família para criar, o de envelhecer feliz. Eram sonhos, ficarão como sonhos, lembrar-me-ei como sonhos.
Uma só lágrima cai pelo rosto do companheiro do que falara, que a limpa de imediato. Após limpar a lágrima, o rapaz começa a levantar-se.
‘Ouve…’
- Vai, já vou ter contigo. Não me demoro.
O jovem assente e começa a afastar-se.
‘Lava as mãos, e limpa-te. Dizem que dá azar se levares terra daqui.’
O conselho é retribuído com um sorriso. Passam um par de minutos até que o resistente se levanta do chão, caminhando depois até à parte antiga do cemitério, do lado oposto, a uns quantos metros.
Aí, pára em frente a uma campa velha, esquecida, com uma lápide suja que tem pouco mais que uma fotografia a preto a branco de um homem, leva a mão ao bolso direito das suas calças e daí tira uma moeda, que atira de pronto para cima da campa.
- Continuo a gostar das meninas bonitas, ‘vô. Foi uma menina bonita que me trouxe até aqui, finalmente.
Suspira, e segue directamente para a saída, sem olhar para trás.
Já passaram uns bons 10 minutos desde que acabei de ler o teu...humm...texto. Só agora consegui reagir. Parabéns, está muito, muito bom. Desencadeou uma panóplia de sensações, desenterrou uma série de sentimentos há muito postos de parte. Acho q qualquer pessoa se identifica com aquilo q escreveste, e isso é o q "nos" motiva a escrever (sejamos nós escritores reconhecidos ou poetas a um canto). Mais uma vez, parabéns :)
ResponderEliminarObrigado pelo comentário, Alice. Não podia concordar mais quando falas nessa motivação. Para mim, a 'melhor' escrita, não sei se esta palavra será a certa, daí as aspas, é aquela que provoca algo no leitor, quer seja seja sentimentos ou um simples divagar no pensamento. Depois deixa o teu mail no primeiro post, para poder fazer o convite e partipares no blog activamente. A ver como é que o pessoal reage, ou não, a isto.
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